

"E tudo que sempre foi igual, de repente ficou diferente"
Só porque eu "tenho" que escrever, eu não consigo escrever, portanto se esse post sair uma bosta, sou eu mais uma vez contrariando todas as suas expectativas, como tenho feito ultimamente e como você afirmou ontem.
Madrugada... eu com sono, com frio e com um pouco de fome, com uma cabeça explodindo de coisas que eu nem sei dizer e um tanto feliz por um feriado no meio da semana e você querendo explicações sobre o tal "buraco" que há entre nós.
E eu que possuo todas as perguntas, ainda estou pensando na resposta, se é que há uma resposta plausível para tudo isso.
Tive vontade de lhe dizer o que vez ou outra tenho que dizer aos outros: "Não posso voltar ao tempo, mas posso construir um novo tempo", mas se eu falasse isso você ia ficar puto e você ficou puto tantas vezes ontem, que eu preferi não piorar as coisas.
"Eu estou num momento em que preciso ficar sozinha" - eu digo.
"Você está é se excluindo" - você retruca.
"Não estou não, só estou me sentindo meio por fora, mas a vontade ainda é de ficar sozinha" - eu tento finalizar.
"Engraçado, você quer ficar sozinha, enquanto o que eu mais quero é ficar com você" - depois dessa, você finalizou.
Silêncio, aquele onde você diz que canta o grilo.
Estamos a meses vivendo, remoendo e sofrendo pelos mesmo motivos, eu pelos meus e você pelos seus e nada acontece. Não estou jogando a culpa na vida, no destino, em Deus, em Alá, sei lá... a culpa é nossa, totalmente nossa porque são nossas escolhas que definem o nosso caminho e no momento nossa escolha tem sido ficar parados vivendo, remoendo e sofrendo nossas dores... inventando bem mais de 50 receitas, porque em matéria de auto-destruição somos nota 10, ou plenamente satisfatórios como prefere o MEC.
Não me alegra escrever isso. Não me alegra perceber essas coisas, ainda que a percepção seja o primeiro passo para a virada. Não me alegra porque escrevi o que percebi, porém não sei o que fazer ou como fazer, às vezes até sei mas dar o segundo passo e começar a caminhar é assustador. Não me alegra olhar pra você e ver você vivendo a mesma situação. Não me alegra olhar pra você e ter vontade de te esmurrar por não entender qual é o teu limite. Não me alegra olhar pra você e ver e ouvir suas reclamações. Não me alegra olhar pra você e ver a mesma covardia que vejo em mim todos os dias quando me olho no espelho. Talvez aí esteja o buraco... talvez o espelho seja o buraco... o espelho que nos reflete um ao outro.
Tenho medo de colocar o dedo numa ferida exposta e tenho medo que você faça o mesmo comigo, numa dessas vai que a gente não se perdoa? Já que eu contrario todas as suas expectativas.
Tem horas que eu também não sei o que fazer, tem horas que me falta a piada e o riso fácil, tem horas que eu canso de carregar tudo, tem horas que eu não sei o que dizer... e nessas horas eu me recolho a mim mesma, até essas horas passarem, porque elas sempre passam.
Voltemos ao início... "E tudo que sempre foi igual de repente ficou diferente". Eu mudei, mas talvez não tenha começado devagar e a recíproca é verdadeira, a crise dos 20 anos, do PT, da fé infantil, da falta de grana e dos "para sempre" contribui para que tudo se torne ainda pior nesses nossos dramas tão nossos, isso porque ainda nem falamos dos meus domingos e da tua insônia.
Sinto que esta é mais uma das etapas entre você e eu, talvez a mais complicada dentre todas, porque quando a gente cresce a gente já não se deita mais na calçada pra ver o céu e nem pega uma bicicleta e uma barra de chocolate e sai pra discutir a camada de ozônio ou qual o nome da nossa futura Mega-Store.
Não preciso abrir meu baú de recordações e nem preciso pegar meus antigos cadernos de anotações para lembrar de tudo o que passamos juntos; na verdade abrir o baú e pegar o caderno só seria necessário se eu precisasse lembrar os momentos em que não estivémos juntos.
Muitas vezes não sei onde termina eu e começa você e vice-versa, geralmente tenho a impressão que somos continuação um do outro.
Somos totalmente iguais. Somos totalmente diferentes. Ou concordamos em tudo, ou discordamos de tudo, meio termo não existe, nunca existiu e duvido que um dia existirá para nós.
Quem nos suporta além de nós mesmos quando a gente se entende por um simples olhar, sem dizer uma única palavra? Ou quando a gente discute sobre a mesma coisa milhares e milhares de vezes sem nunca mudar nossas opiniões? Ou quando defendemos um ao outro mesmo sabendo que estamos errando ou entrando numa canoa furada?
Quantos trios, quartetos, quintetos, turmas se perderam no tempo e nós permanecemos? Você não entende que nossa relação é ímpar e que não deve ser colocada na balança com nada porque é única e você tem feito isso ainda que não abra a boca pra dizer uma única palavra?
Você! Que é a pessoa que mais me conhece, acho que me conhece mais até do que eu mesma. Que sempre foi meu médico, meu amigo, meu conselheiro espiritual, profissional, meu companheiro de todos os sonhos, o irmão que eu não tive... fica comparando, cobrando, sofrendo e me fazendo sofrer, num momento onde deveríamos nos apoiar nas poucas certezas que temos para transformar as nossas vidas, ao invés de alimentar os tais buracos como estamos fazendo.
Parei. Cansei. Tá doendo, não uma dor profunda mas um incômodo.
Talvez eu deveria ter resumido tudo em poucas palavras... um "eu te amo", um "para de besteira e vamos comer alguma coisa e falar besteiras", um "desculpa mas eu sou egocêntrica às vezes", um "não entendo nada do que você tá falando, mas nunca quis te magoar", ou até um "a gente tá fudido mas vamos superar" mas não, tudo tem que ser extenso, intenso, profundo e passional, porque isso é o que nós somos.
Iguais ou diferentes, eu sempre te amei, te amo e vou te amar.
Mais um domingo, "eu que detesto domingo, por ser oco". Ainda bem que eles acabam... acabam por si próprios e acabam comigo.
Aqui estou num dia quente como há muito eu desejava, na solidão do meu quarto ouvindo minha seleção musical de hoje, Chico Buarque, Maria Bethânia e minha mais nova e preciosa descoberta Isabella Taviani.
"Escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio".
Eu vi um sonho existir antes que todos percebessem, antes que nós mesmos percebessemos. Eu vi um sonho ganhar forma, ganhar cor, ganhar vida e finalmente ser concebido na realidade mais real. Com a concepção e a realidade eu vi o sonho ganhar novas formas, novas cores, nova vida e desenvolvimento dia após dia. O sonho enchia nossos olhos de alegria, orgulho e esperanças de um futuro promissor. Mas a realidade em que o sonho vivia, em que nós todos vivemos apresentou seus obstáculos, sua faceta mal planejada, sua via trágica. E nós meros sonhadores, ficamos achando que era só um pequeno problema, um pequeno erro, um pequeno obstáculo, um pequeno plano mal planejado, quando a extensão do problema, do erro, do obstáculo, do plano mal planejado era na real, por mais irônico que isso pareça, gigantesca. O sonho já não era mais doce, o sorriso já não vinha fácil, o esforço passara a ser sacrifício e nós ainda preferimos jogar tudo debaixo do tapete a assumir que o sonho estava ficando sem forma, sem cor e sem vida. Mas não foi preciso assumir nada, pelo menos ainda não; porque a realidade traz a verdade, ainda que isso fira nossos sonhos ao ponto de nos deixar quase e ou totalmente vazios. O sonho está morrendo lentamente, totalmente ainda não sei, mas acho difícil não o ser. E eu estou aqui, entre sonho e realidade num quase pesadelo que terá fim e ou início no Dia das Bruxas.
Desejo que você ganhe dinheiro pois é preciso viver também e que você diga a ele pelo menos uma vez quem é mesmo o dono de quem... este trecho da música Amor pra Recomeçar do Frejat não sai da minha cabeça. Assim que eu tiver em mãos uma quantidade de dinheiro, vou fixar meus olhos, vou olhar o meu olhar mais frio e perigoso e estabelecer limites nessa relação tão conturbada de amor e ódio que eu e o dinheiro vivemos.
Amor, já está decidido... você cuida das finanças.
Hoje tô vazia, tô sem graça, apagada, chata, carente, confusa, irritada, na verdade "não gosto do que acabo de escrever mas sou obrigada a aceitar o trecho todo porque ele me aconteceu".
"Há muita coisa a dizer que não sei como dizer. Faltam as palavras".
Que venha a segunda-feira, a semana, os tediosos problemas e as possíveis resoluções.
Ainda que difícil é preciso insistir.
* Os trechos em aspas são de Clarice Lispector, estou lendo Água Viva.

"Desejo que você ganhe dinheiro pois é preciso viver também e que você diga a ele pelo menos uma vez quem é mesmo o dono de quem..."